Interferência (fase de testes)

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Quando vi O Falcão Maltês pela primeira vez (foi lançado no Brasil com o título de Relíquia Macabra), gostei muito e só aumentou mais a vontade de ler o livro. Após descobrir um exemplar num sebo, revi o filme. Mesmo ciente das diferenças entre as duas linguagens, entre palavras e imagens, do beco sem saída ao comparar as lacunas para a imaginação da literatura com as novas dimensões propostas pelo cinema, senti mais reserva em relação ao filme. Uma reação natural, não se pode ficar indiferente diante do contentamento provocado por uma obra.  Haverá comparações. É uma resposta saudável, principalmente se as versões audiovisuais estimularem a procura pelas obras originais, como foi o caso das séries de TV Hilda Furacão e Os Maias. O resultado não é apenas a possibilidade de comparação, mas um enriquecimento cultural válido independentemente da qualidade de livro ou filme.

Ainda que as adaptações sejam formuladas para um público padrão para aumentar as chances de lucro, roteiristas e diretores não deixam de fazer uma leitura pessoal da obra original e transmitem isso no resultado final. O roteirista da versão cinematográfica de 2002 de O Conde de Monte Cristo disse que sempre achou que Edmond deveria ser o pai do filho de Mercedes. Pode ser clichê, mas era a opinião dele. Até em adaptações que buscam extrema fidelidade ao texto original apresentam toques próprios do diretor/roteirista. A versão cinematográfica de 1996 da peça Hamlet, dirigida por Kenneth Branagh, é conhecida por ser o primeiro filme a usar o texto de Shakespeare na íntegra (por isso as quatro horas de duração do longa), mas apresenta cenas somente descritas mas não interpretadas na peça original (como a infância de Hamlet ao lado de Yorick, cujo crânio é motivo do mónologo sobre a morte proferido pelo príncipe) ou apenas implícitas no texto da peça, como a relação sexual de Hamlet e Ofélia.

Ter consciência destes fatores e escolhas pode ajudar a apreciar um filme, mas o melhor mesmo é ainda lembrar que cinema e literatura são campos diferentes. Como Alan Moore disse em entrevista para a Trip, "a coisa ruim das adaptações feitas a partir de literatura, por exemplo, é que elas inevitavelmente perdem a voz do autor, o jeito que ele usa as palavras", o que não implica em repudiar qualquer adaptação, mas vê-las como são em primeiro lugar: como filmes, antes de serem baseados em qualquer outra mídia. O Silêncio dos Inocentes, Cidade de Deus, a trilogia O Senhor dos Anéis, Onde Os Fracos Não Têm Vez, Perfume - A História de um Assassino e Filhos da Esperança são ótimos filmes, independentemente de serem adaptações de livros. Da mesma forma, Carandiru, Tróia, O Código da Vinci, Guerra dos Mundos (2005), A Bússola de Ouro e alguns filmes do 007 são medíocres na tela, sejam eles bons ou não como livros.

Dito isto, por que é tão comum a sensação de que o livro é melhor que o filme? Possivelmente porque as palavras estimulam imaginação, os livros não têm tanta preocupação com a faixa etária do público nem precisam ficar preso a uma média-padrão de páginas, enquanto filmes precisam prestar muita atenção a censura e se encaixar a história em duas horas. Mas a principal razão mesmo é porque são campos diferentes, perde-se a prosa, o estilo do autor que conquista o leitor. Apesar de reconhecer a diferença entre as mídias, estou tentando lembrar de filmes que possam ser mais cativantes que os livros e não lembro de nenhum, o que prova que eu preciso ainda ler mais livros e assistir a mais filmes. Já li comentários dizendo que o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick, é melhor que o livro ou que Os Pássaros, de Hitchcock, é superior ao conto. Mas não importa muito se não se conhece a obra original ou pior: não incita curiosidade alguma sobre o tema proposto.

Para alcançar as nuvens

Assistindo ao documentário O Equilibrista, eu me fazia a mesma pergunta criticada por Philippe Petit em determinada cena do filme. "Por quê?". Qual o motivo para andar sobre um cabo suspenso entre as torres do World Trade Center? Sem nenhum equipamento de proteção, apenas contando com a própria habilidade de equilibrista. Petit viu a notícia da inauguração do maior prédio do mundo (naquela época) e criou sua obsessão. Não diz a razão e até provoca a psicanálise ao afirmar apenas que sempre gostou de escalar coisas. Talvez esta aparente falta de preocupação em entender a si mesmo faça parte do seu magnetismo, porque é necessário saber cativar as pessoas por meses para ajudar num plano tão arriscado. Afinal, montar o cabo é a última parte do processo. É preciso conhecer a estrutura do prédio, enganar a segurança, saber como transportar o equipamento. E tudo isso para um homem brilhar sozinho, equilibrado sobre um fio, mais de 400 metros acima das ruas de Manhattan.

Dito desta forma, não há como não se perguntar por que Petit e seus companheiros fizeram aquilo. Sim, é estarrecedor o momento em que o equilibrista olha para baixo e percebe que chegou o momento de tirar o pé de apoio do telhado e começar a caminhar sobre o cabo. Ou quando decide olhar para baixo e vê a multidão fascinada. De certa forma, Petit carrega um traço heróico por ser firme no seu objetivo (nem que para isso tenha que desrespeitar a lei), desafiar a morte e, no fim, viver uma experiência que nenhum de nós jamais sentirá: estar no topo do mundo moderno, olhar para ele e fazer com que ele olhe de volta. Sim, é invejável. Não apenas a façanha em si, mas o planejamento e envolvimento dos amigos: as discussões, os disfarces, os esconderijos, os temores. Não é à toa que o filme é narrado num ritmo acelerado, como se fosse um assalto a banco. Mas, em vez de se questionar se não estaria ajudando uma pessoa querida a ir para a cadeia, um personagem confessa diretamente seu dilema: "não queria colaborar na morte de um amigo".

E isso leva ao ponto central do desafio do equilibrista: o risco de morrer fazendo tudo valer a pena, mais até do que a admiração das pessoas. É uma ótima história, mas... e se Petit caísse? De um herói louco veríamos apenas um maluco idiota, marcando a primeira tragédia do World Trade Center. Ao mesmo tempo, Petit afirma que seria uma morte linda, pois estaria realizando o sonho de sua vida. E isso não seria cruel ao ponto de implicar na morte de outras pessoas. Coragem ou loucura de reconhecer seu sonho e dar tudo para realizá-lo? Não aceitar apenas os custos das etapas antes do feito, mas o que acontecerá após a sua concretização. A façanha de Petit custou alguma coisa de seus relacionamentos. Mas ele não se arrepende. Talvez isso seja o mais bonito do personagem, mesmo não sendo o mais importante. O filme é claro quanto a isto. Ver um homem se equilibrar entre os dois maiores prédios do mundo e seu sorriso de satisfação equivale a um mito moderno que pode ensinar o valor da perseverança e o prazer de uma realização pessoal. É uma leitura carinhosa de uma ideia insana que, felizmente, teve um bom final.

Pipoca e aniquilação

Uma das piadas mais recorrentes no twitter sobre o blecaute que atingiu pelo menos dez Estados na noite de ontem foi que tudo não passava de um marketing viral para a estreia do filme 2012. O fim do mundo pode começar com estranhos fenômenos que abrem portas para a violência geral diante da dificuldade ou impossibilidade de segurança pública e punição para os infratores. Mas é difícil acreditar que o novo filme do diretor Roland Emmerich dê atenção a uma possível anarquia destrutiva decorrente da iminência do fim dos tempos. O destaque irá para as cenas de destruição de monumentos famosos e outras localidades, como já foi visto em Independence Day e O Dia Depois de Amanhã, também dirigidos por Emmerich. Percebe-se que, além do seu gosto por desastres de escala mundial, o diretor abraçou sem medo o objetivo de fazer filmes para massagear o ego do público norte-americano, mesmo tendo nascido na Alemanha. O feriado de independência dos Estados Unidos é o dia da vitória da raça humana contra os aliens; os franceses são culpados pela acidente nuclear que provocou a mutação no monstro Godzilla (nos originais japoneses, a terra de Obama é a culpada) e cabe aos norte-americanos a tarefa de derrotá-lo; em O Patriota, a batalha pela independência dos Estados Unidos é mostrada de maneira muito clara: os colonos só querem liberdade e justiça (incluindo para os escravos), mas a maldade britânica não permite. Não é de se estranhar que ele tenha demonstrado interesse em dirigir Transformers, mas a Dreamworks preferiu entregar o filme a Michael Bay, outro patriota sem muitas sutilezas.

Mas o problema maior não é ver a predominância da bandeira dos Estados Unidos, até porque isso não atrapalha uma diversão bem montada. O incômodo é ver como insistem em mostrar que, na iminência  da destruição do planeta, cada indivíduo mostra seu valor mais puro e nobre, se preocupando em discutir relações e curar traumas familiares (e são justamente aqueles que sobrevivem aos desastres globais). Em qualquer situação de extremo risco, qualquer pessoa  em sã consciência só terá duas preocupações: sobreviver e proteger entes queridos. Sem muita conversa para ensinamentos ou dignidade de valores, priorizando a união de esforços como o objetivo de continuar viva, não para arranjar amigos, o que não necessariamente reflete o lado mais bonito do ser humano (algo que o filme Extermínio retratou bem, mesmo não tratando da extinção da Terra).

Filmes que enfocam sobre o fim da humanidade, e não do planeta, costumam ser mais interessantes (Filhos da Esperança e Eu Sou A Lenda, por exemplo). Claro que, em obras como Guerra dos Mundos, o fim do mundo não é para assustar, mas para divertir. Acaba não atraindo mais, só mesmo pela pipoca, o que obviamente não é nenhum pecado. Não é errado não ser exigente. Mas também não é erro reparar mais em exemplos do tema que despertam o interesse, como o filme Presságio, lançado este ano. Mais do que ver grandes cenas de desastres, interessa se identificar com os personagens e suas reações diante de um problema que, mesmo que a humanidade ainda não tenha experiência prática em enfrentá-lo, já se sabe que não pode ser contornado.

(pode) Ser ou não ser

"Um jovem usando uma máscara de gás transita em uma cidade vazia e cinzenta"

É a sinopse do curta-metragem Quarto de Espera, resultado de um trabalho de conclusão de curso da PUC-RS no ano passado. Já ganhou alguns prêmios e vem sendo exibido em festivais pelo Brasil. Apesar de ser normal neste tipo de espaço aparecerem histórias bastante subjetivas, em formato experimental, de conteúdo impreciso, achei difícil o filme usar seus 12m30s apenas para mostrar o tal homem da máscara caminhando por ruas desertas e sem cor.

De fato, outras coisas acontecem. Outros personagens aparecem. A fotografia e produção da cidade vazia são impressionantes. Ao final do filme, muitas questões ficaram em aberto. Por que alguns personagens agem daquela maneira? Qual a razão de alguns confrontos? O que a a máscara de oxigênio representa? E o homem do aspirador de pó? Na sala, comentei que o estilo do filme lembrava o David Lynch: uma história surreal, geralmente de aspecto sinistro, que nunca fornece uma conclusão imediata (e muitas vezes, sequer  plausível). Lá com os meus botões, imaginei algumas interpretações do filme. A máscara - que imediatamente me lembra o vilão Psycho Mantis, do jogo Metal Gear Solid - seria uma representação da perda gradativa da humanidade do protagonista. O formato dela lembra algum animal, uma mosca, ou até um rosto alienígena. A respiração é ruidosa e pesada, lembrando barulho de máquina. O protagonista, ao seu modo, tenta manter a ordem local. Talvez a máscara fosse um símbolo de poder ou uma consequência do fato da cidade estar vazia. Ou apenas o resultado de mais um confronto.

Quando o diretor subiu à mesa de debates, vieram as perguntas. É um mundo pós-apocalíptico? Era uma leitura, mas também podia ser o mundo atual. Ok. Por que as pessoas entravam em confronto? Não havia uma resposta definitiva, mas ele gostava de pensar que era por simplesmente não conseguirem mais conversar. Certo. E os outros personagens, também peculiares, que faziam? Eram da cidade, passavam por ali. Muito bem. E a máscara industrial de oxigênio, o chamariz do filme, o aspecto mais instigante da história, como ela surgiu no roteiro? Bom, o personagem poderia não estar usando máscara alguma, mas o seu uso poderia ser um efeito da poluição do meio ambiente. Poderia...

Saí da sala lembrando de uma declaração da sobrinha do diretor Alfred Hitchcock ao making-of de um de seus filmes. Disse que, durante suas aulas de cinema, quando os professores passavam algum trabalho sobre o mestre dos filmes de suspense naquela época, ela ia pedir ajuda do tio. Ao apresentar as discussões e conclusões dos professores, fornecendo interpretações sobre muitos aspectos de seus filmes, a moça escutava do diretor: "de onde vocês tiram essas coisas?". Então ele dizia que não era nada daquilo que estava querendo dizer. Quando ela entregava o trabalho, recebia a avaliação "bom, mas incompleto". E Hitchcock, sem poder fazer muita coisa, apenas dizia que sentia muito.

É prazeroso descobrir as pistas e simbolismos de um filme, principalmente quando eles não estão muito evidentes - como em muitos famosos filmes europeus da década de 50 e 60. É até divertido. Alguns são exemplos clássicos da escola, como a crítica ao modelo fordista e as considerações sobre o cinema falado em "Tempos Modernos" ou o poder da igreja e o impacto da escrita em "O Nome da Rosa". Mas há alguns filmes que têm cenas que simplesmente não fazem sentido aparente e é preciso forçar a imaginação e a memória para entender o seu significado ou então aceitar que o objetivo não é fazer sentido algum mesmo. E ainda assim, é possível continuar tentando entender, mesmo com a sensação de estar procurando pêlo em ovo (ou fazer papel de idiota). Sempre lembro de 2001 - Uma Odisséia no Espaço nessas horas. O mais recente exemplo foi o brasileiro Mistéryos. Mas, ao contrário do filme de Stanley Kubrick, esta obra não faz esforço algum para ser memorável. Se fez, a resposta saiu errada. De qualquer forma, mesmo que não compreendamos os objetivos, referências e metáforas do filme, ainda é muito bom quando surgem dúvidas que fazem pensar. E é melhor ainda rever o filme e descobrir novas evidências: somente mês passado reparei na cena em que o filho do protagonista de Corpo Fechado assiste ao desenho "Meninas Superpoderosas", uma paródia de superheróis. E superpoderes são um dos temas do filme. Tenho quase certeza de que não foi à toa. Quanto mais sutil, menor a certeza. E mais agradável a sensação de perceber pela primeira vez.

Chave de ouro

O filme mais esperado para o fim deste ano é Avatar, dirigido por James Cameron. Onze anos depois de fazer a maior bilheteria da história do cinema mundial com Titanic (um hiato que só faz aumentar a expectativa para o filme seguinte), o diretor volta ao gênero da ficção científica, campo onde seu nome é referência graças a trabalhos como O Segredo do Abismo e O Exterminador do Futuro. Desenvolver e utilizar avançadas tecnologias de efeitos visuais no cinema para contar boas histórias é uma característica de Cameron, e promete seguir o estilo. Porém, além da fama e competência do diretor, a espera por Avatar representa a chance de um grande filme encerrar o ano de 2009 e a década.


Claro que este ano trouxe bons filmes, mas as obras mais esperadas ficaram abaixo do memorável (Star Trek e Inimigos Públicos foram as sessões mais gratificantes para mim). E o sentimento de que o cinema do último ano da década está deixando a desejar é reforçado pela memória de 1999, ano de lançamento de alguns filmes cultuados até agora: Matrix, Clube da Luta, O Sexto Sentido, Quero Ser John Malkovich. Há outros exemplos não tão célebres, mas que repercurtiram sensivelmente aos olhos dos espectadores, como O Informante, De Olhos Bem Fechados, Segundas Intenções e Beleza Americana. Um certo pessimismo diante da vida (talvez pela proximidade do fim do milênio) parece ter sido um componente importante para a fertilidade daquele período.

Porém, o filme lançado em 1999 cuja influência mais se sente nos últimos meses é A Bruxa de Blair. Não somente pelo formato documentário, câmera na mão, num estilo neoverité, visto ano passado em [REC] ou atualmente em Distrito 9. O grande êxito do filme foi se vender como se tratasse de uma história real: atores amadores que permitiram o uso de seus nomes reais para os personagens, sentindo frio, recebendo cada vez menos comida da equipe de produção, diálogos e gravações semi-improvisados, apenas seguindo vagas instruções dos diretores sem saber o que encontrariam pela frente, tudo para obter o efeito mais realista possível da degradação psicológica dos protagonistas.



Durante as filmagens, mesmo cientes de que se tratava de um obra de ficção, os atores acreditavam que a lenda da Bruxa realmente existia, até serem informados posteriormente que toda a mitologia da história foi concebida pelo criadores do filme. Além disso, os diretores fizeram para a TV um falso documentário (mockumentary) como material promocional, onde explicavam a origem da lenda e entrevistavam familiares e amigos dos estudantes desaparecidos. Criaram um site exibindo cartazes de "desaparecidos" com a foto dos atores e, no Festival de Cannes, espalharam folhetos informando que o paradeiro dos três estudantes ainda era desconhecido. Foi um dos pioneiros no uso da internet e do marketing viral, amplamente usado em filmes como Cavaleiro das Trevas, Cloverfield e o recente Paranormal Activity.



Agora, dez anos depois, os diretores anunciaram uma sequência para a história (eles rejeitaram veementemente o filme "Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras", lançado em 2000 sem a aprovação deles e com o propósito declarado de aproveitar a fama do primeiro filme). Vai ser interessante ver como todos esses anos influenciaram sua concepção do trabalho. Seria ainda mais interessante se a nova parte fosse lançada agora, para fazer tal qual o primeiro capítulo e encerrar o ano com chave de ouro, ainda que este ano não tenha sido brilhante como 1999. Resta esperar Avatar. Ou, quem sabe, mais dez anos.

Trilha da periferia

Qual é a graça das festas de aparelhagem em Belém? São feitas em lugares apertados para o público presente, servindo de ponto de encontro para gangues e garotas de programas, palco de costumeiras brigas oriundas de muito álcool e pouca paciência, ouvindo a batida repetitiva do tecnobrega, produzida em um sonoridade absurdamente alta, acompanhada de luzes, coreografias e figurinos constrangedores para letras sobre sexo casual, geralmente denegrindo a imagem da mulher, eco dos bailes funks das favelas cariocas. É um espetáculo exagerado, cafona, com uso e abuso do ridículo e da pobreza como principal chamariz. Qual é a graça? A resposta parece evidente, mas há quem também ache lastimável jovens fantasiados de Naruto ou Power Ranger, milhares de pessoas se esmagando para acompanhar uma corda atrelada a uma imagem sagrada para a religião católica ou o fato de 22 homens disputarem a posse de uma bola durante noventa minutos. Mais do que o argumento de que "gosto não se discute", o sucesso de um evento ou fenômeno (ou manifestação sócio-cultural, para ser mais enjoado) reflete o contexto onde surgiu, implicações da época e de um cenário maior. E é esse o melhor do documentário Brega S/A: numa linguagem de videoclipe, mostrar o funcionamento do tecnobrega, suas regras, seus atores, todos ligados numa teia complexa demais para ser chamada unicamente de "lixo musical".

O tecnobrega faz sucesso porque é fruto da independência oferecida pela pirataria. Sem a necessidade do apoio de empresários ou gravadoras, os músicos desse estilo gravam e copiam seus próprios cd's (usando programas baixados ilegalmente pela internet) e usam o comércio dos camelôs para a distribuição. Se os camelôs vendem bem, a música se torna conhecida e as chances de fazer um show aumentam. E as apresentações precisam mais que playback: precisam se identificar com o público e impressioná-lo. Por isso as letras rudes falando sobre sexo rasgado e diversão (sempre entrecortadas pela voz do dj mandando abraços e recado para alguém), por isso o uso de luzes e pirotecnia nas aparelhagens. Como um dos personagens mais interessantes do documentário diz: "é uma válvula de escape (...), nosso público é o cara do comércio, o camelô, o trabalhador braçal que carrega 50 sacos de cimento e ganha 5 reais". A impressão é que, quanto mais os aparatos e ferramentas utilizadas fugirem da normalidade, maior a catarse.

O mais interessante é ver como o tecnobrega é um movimento de origem e destino semelhantes: as camadas mais baixas da sociedade. Do estúdio precário e caseiro, passando pelos camelôs cobertos por lonas azuis, até as multidões atingidas pelas incessantes batidas do estilo, o que se vê são pessoas que não de vangloriam do que fazem, apenas seguiram um caminho para garantir a sobrevivência. Um trabalho, sem orgulho, sem vergonha. Ou seja: além da popularização da internet, a desigualdade social e atraso do poder público também são fontes do tecnobrega, que, além de diversão sonora, também produziu comunidades próprias, com seus subgrupos e disputas. Ainda não se sabe se foi intenção dos realizadores Vladimir Cunha e Gustavo Godinho não dar muita atenção a este desdobramento, deixando-o mais como uma conclusão a cargo do telespectador do que como uma hipótese a ser trabalhada pelo filme. Mas não foi ruim, já que o foco do trabalho é sempre explicar a organização do estilo musical. Investir em argumentos sociológicos e acadêmicos, embora pudesse ser enriquecedor, não fez falta.

Mas fez falta mostrar mais o lado negativo da pirataria. Aliás, uma dúvida: pode ser considerado pirataria se não se registra os direitos autorais e o próprio autor distribui o trabalho sem se preocupar com os lucros pelas reprodução da música? Por exemplo, a banda baiana Djavú faz sucesso regravando músicas sem registro legal do tecnomelody paraense, enquanto os autores não ganham nada com isso. Onde a lei autoral pode ajudar? Ou tudo se resume a uma questão de (falta de) ética? Mostrar a violência da polícia enfrentando os camelôs não é suficiente para ilustrar os problemas da pirataria, principalmente porque os policiais, justos ou não, estão amparados pela lei. O comércio ilegal faz mais do que fomentar o acesso das classes mais pobres à músicas e filmes piratas. Os camelôs expõem suas justificativas, o outro lado poderia ter a chance de fazer o mesmo.

Porém, se for confirmado, uma versão estendida anunciada estará disponível para download no site da produtora Greenvision. Talvez dê mais atenção ao aspecto ruim da pirataria. Se não der, contudo, o resultado já visto vale de qualquer jeito, principalmente ao se levar em conta que os diretores pagaram tudo do próprio bolso e amargaram boas dificuldades financeiras, já que nenhuma empresa local se interessou em bancar um projeto sobre tecnobrega. É de pensar se consideraram um trabalho sobre "lixo musical", desconhecendo ou fechando os olhos para todas as questões importantes que permeiam tal manifestação. Nestes casos, é sempre bom lembrar: não se trata apenas de juízo de valor artístico ou cultural. Trata-se de fatos interligados ao cotidiano de uma cidade e, por isso, pode afetar a muitos, fãs de tecnobrega ou não.

Década como pretexto

O site Rotten Tomatoes, referência na avaliação crítica de filmes e também conhecido por suas listas, fez sua seleção dos 100 piores filmes da década. Os anos 2000. Ainda é estranho dizer isso. Mas é o tempo, afinal. Este período de tempo entre 2000 e 2009, tão marcante para pessoas da minha idade, na era dos vinte e tantos anos. Soa esquisito, mas não necessariamente ruim. Algo sempre vale a pena. E, no cinema, também há algo para se comemorar, principalmente com a quebra da maldição das sequências: já não é incomum assistir a continuações superiores à primeira parte, embora este ano tenha trazido X-Men Origens: Wolverine, Transformers 2, Os Normais 2 e 13º Distrito: Ultimato (nas locadoras).

Na década de 2000, o Cinema passou a sofrer fortemente o impacto da pirataria, onde é possível encontrar os últimos lançamentos (incluindo aqueles que não chegaram na cidade) na calçada das ruas. Por isso, tal qual a tentativa do Cinema de resistir à ascensão da TV nos anos 50 investindo na produção de filmes épicos para aproveitar as dimensões da tela panorâmica, novamente há uma concentração na realização de filmes em formatos que aproveitem a exclusividade técnica de algumas salas, como os cinemas digitais, 3D ou Imax. Além disso, os estúdios passaram a investir em fórmulas e ideias já consagradas pelo público para fazer seus filmes, aumentando assim as chances de lucro. E veio a onda de continuações de sucessos, remakes e, claro, das adaptações de quadrinhos, consolidadas como um gênero cinematográfico. Do primeiro X-Men até Watchmen, nunca se investiu em tantos filmes baseados em hq's como nos últimos anos, provavelmente atingindo seu auge ano passado, como O Cavaleiro das Trevas. Foi a década em que o cinema nacional cresceu, a partir de Cidade de Deus. Cinema nacional além da Globo Filmes, embora não tenha como não reconhecer que seus filmes sejam os principais responsáveis pelo aumento do público nas salas para um longa-metragem brasileiro. Já entre as modas de filmes, os remakes de obras asiáticas de terror explodiram nos anos 2000, explorando maldições envolvendo crianças e tecnologias, começando por O Chamado. E, como é próprio das modas, um dia elas enchem: não é à toa que Uma Chamada Perdida, de 2008, está em segundo lugar na lista, embora seja muito pior que o primeiro colocado.

Sobre a lista dos piores, o gênero comédia predomina entre os escolhidos, sendo seguido por suspense/terror. Não é fácil fazer rir ou sentir tensão. São duas reações sentimentais muito marcantes, presentes nos momentos mais significativos da vida. Quando bem-sucedidas, elas se fixam na memória. Assim como as sessões de cinema que nunca se esquece. Talvez faça uma lista delas. Não para ser memorizada, claro. Apenas para cumprir o propósito das listas: ser pretexto e fornecer, sem se levar muito a sério, um pouco de referência para debate descontraído e memória. Principalmente memória. Afinal, o tempo passa.